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ATENDIMENTO MÉDICO NO ESPORTE:
ATÉ QUE PONTO ELE REALMENTE É EFICAZ?

por Arthur Sales

O fim do jogo entre São José dos Campos e Preve/Concilig/Semel, válido pela final da Superliga B feminina de vôlei, vencida pelas joseenses, não trouxe apenas tristeza pelo adiamento do sonho bauruense de fazer parte da elite do vôlei nacional, mas também muita preocupação.

Instantes depois do término da partida, a jogadora Vivian, de Bauru, sentiu-se mal, chegando a desmaiar na beira da quadra: "Eu já estava meio fraca durante o jogo, depois que o jogo acabou, veio à tontura. Não consegui ficar em pé, foi muito estranho", descreve a atleta. Naquele instante, Vivian foi atendida pelo fisioterapeuta da equipe bauruense, recuperando-se minutos depois. Felizmente, neste caso, tudo não passou de um susto: "Falaram que foi uma queda de pressão" explica a jogadora, mas o que chamou a atenção foi a falta de uma equipe médica no local. Assim que o jogo terminou, a partir do último ponto decidido, os profissionais que realizam o atendimento de emergência, simplesmente foram embora e não mais retornaram.

No último sábado (5), em Tupã, no jogo entre Tupã e Noroeste, válido pela penúltima rodada da Série A3 do Campeonato Paulista, um torcedor de 66 anos do Tupã, teve um ataque cardíaco nas arquibancadas do Estádio Alonso Carvalho Braga, meia hora antes do início da partida. Populares que estavam próximos ao torcedor na arquibancada coberta, tentaram reanimá-lo Rapidamente foi solicitada a ambulância, que já estava estacionada no estádio. O torcedor foi conduzido até o pronto socorro local, mas infelizmente acabou falecendo, vítima de infarto.

Este dois fatos servem para levantar a questão sobre a necessidade de uma equipe médica nas praças esportivas, e mais do que isso, o tempo de permanência de uma equipe médica, tanto antes como após o fim de uma disputa esportiva. Casos onde o staff médico deixa o local da competição imediatamente após o seu término, não são exceção, e quando isso acontece os atletas ficam expostos.

Segundo Bruno Camargo, preparador físico do Paschoalotto/Bauru Basquete, mestrado em fisiologia do exercício, existe sim a possibilidade de um atleta sofrer algum tipo de problema cardíaco após o encerramento de uma partida: "Em relação à preocupação com um mau súbito, na média, em 5, 10 minutos o atleta já está em suas condições normais". Esta margem, por exemplo, não foi respeitada na final da Superliga B. É bem verdade que são poucos minutos, mas eles podem fazer diferença.

Procuramos então uma especialista em legislação esportiva, para saber como o caso de Vivian, como o do torcedor em Tupã, acabam sendo enquadrados. Entretanto, a legislação que poderia abranger a questão, acaba não sendo clara o suficiente.

O estatuto do torcedor, lei que rege o desporto profissional no país, determina que para cada dez mil torcedores presentes no evento esportivo estejam à disposição uma ambulância, um médico e dois enfermeiros, não mencionado o tempo de permanência após o fim da partida, deixando uma lacuna interpretativa. Ao mesmo tempo a Lei Pelé considera esporte profissional aquele em que há pagamento de ingresso, na final da Superliga B não havia, e vínculo contratual desportivo dos atletas envolvidos como explica a coordenadora da comissão de direito desportivo da OAB-Bauru, Raquel Alves Custódio: "Culturalmente, no Brasil, a única modalidade que exige contrato de trabalho desportivo é o futebol, pois algumas outras modalidades, geralmente há contratos com a franquia".

O vácuo fica maior quando se observa que o texto não é claro quanto ao tempo de permanência após o fim da partida:" De fato, o tempo de permanência após os eventos esportivos é abstrato.Há um tempo atrás, no jogo do Bauru Basquete, a partida atrasou pois a ambulância ainda não havia chegado. Veja, há uma interpretação que enquanto a equipe médica não chega, não se começa o evento, todavia, não há previsão legal, apenas bom senso, acerca do tempo de permanência após o evento.", conclui Raquel.

Outro dia, no jogo entre Noroeste e Novorizontino, os portões só foram abertos aos torcedores, às 19h32, sendo que o jogo estava marcado para às 19h30. O motivo, é que ambulância que faria o eventual atendimento as duas equipes e aos torcedores, chegou apenas às 19h30. Na ocasião, o representante do Noroeste justificou que os torcedores só poderiam entrar ao estádio, mediante a chegada da ambulância. A atitude tomada mostrou-se correta, pois em Tupã, ocorreu na prática, um caso onde um torcedor teve um mal súbito antes do início da partida.

O Código Brasileiro de Justiça Desportiva poderia ser observado, na visão de Raquel Custódio. Raquel complementa: "O artigo 211 do CBJD fala sobre deixar de garantir estrutura e segurança na praça esportiva, que talvez seria o cabível no caso concreto, em caso de algum infortúnio", acrescenta. Este artigo prevê multa em caso de descumprimento da garantia de segurança e estrutura, contudo, não cita especificamente a equipe médica, ficando submetida a questão aos dizeres contidos no Estatuto do Torcedor e na Lei Pelé.

Os torcedores, e, principal e fundamentalmente, os atletas, ficam então sujeitos ao bom senso de quem está prestando o serviço, algo que, não deveria, mas em algumas ocasiões falta. O caso de Vivian serve de alerta para que as leis sejam mais claras ou que, simplesmente, o staff aguarde 10, 15 minutos depois do apito final garantindo a integridade dos competidores.


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